Impeachment: Fachin freia a pedalada constitucional
Ao suspender liminarmente ontem a
instalação da comissão especial do impeachment eleita por voto secreto o
ministro Luiz Edson Fachin sinalizou que o STF não permitirá pedaladas
constitucionais para viabilizar o afastamento da presidente Dilma Rousseff em
processo que caracterize golpe parlamentar.
Fachin puxou o freio mas não
anulou o procedimento imposto por Eduardo Cunha em aliança com os adversários
do governo, deixando a decisão final sobre a ação impetrada pelo PC do B para o
plenário do Supremo, que no dia 16 examinará o conjunto de ações que ali
tramitam questionando os ritos do processo. Uma delas, também do PC do B,
questiona lacunas da própria lei 1.079, de 1950, anterior portanto à
Constituição de 1988, com a qual poderia ter conflitos. A decisão poderá
alterar substancialmente os rumos do processo, a começar pela composição da
comissão.
Quando alegou a necessidade de
evitar “a prática de atos que eventualmente poderão ser invalidados pelo STF e
obstar o aumento da instabilidade jurídica”, o ministro Fachin referiu-se
diretamente à votação secreta adotada por Cunha para favorecer a
oposição. Aqui e alhures, todos sabem, o voto secreto favorece a traição e a
infidelidade.
A tendência do STF a
reprovar o voto secreto no Congresso, exceto nos casos previstos na
Constituição, foi explicitada recentemente quando o Senado votou a homologação
da prisão do senador Delcídio Amaral. O STF determinou voto aberto, em decisão
quase simultânea com a dos próprios senadores de não adotar o voto secreto. A
escolha dos membros da comissão do impeachment por tal sistema não se inscreve
entre as exceções constitucionais. Foi imposta por Cunha a partir de sua
própria interpretação do regimento interno da Cãmara. O resultado foi o
esperado. A comissão saiu com viés inteiramente pró-impeachment, incluindo os
oito representantes do PMDB.
Com a freada de Fachin, o jogo
parou. E o governo terminou com uma importante vitória uma noite qualificada
como de primeira grande derrota na batalha do impeachment.
Outra leitura da derrota
Antes da decisão de Fachin, a
oposição soltava fogos, alardeando que o próximo passo agora seria a
destituição do líder do PMDB, Leonardo Picciani. O fato de a chapa da
oposição ter obtido 73 votos a mais que os 199 da chapa oficial, derivada da
indicação dos líderes, foi apontado por quase todos os analistas da mídia como
uma grande derrota para o governo. O que tal votação apontou foi o favoritismo
da oposição na comissão, garantindo-lhe a aprovação de um parecer favorável ao
impeachment.
Mas qualquer que seja o resultado
da votação na comissão, a decisão final será do plenário. E olhando por este
ângulo, o que se viu foi que, hoje, o governo teria votos para barrar o
impeachment. “Tivemos 199 votos sólidos, fechados com o governo, apesar
da manobra do voto secreto. Estamos olhando para o plenário, não para a
comissão”, dizia o vice-lider Silvio Costa. É claro que, entre a votação de
ontem e a do plenário podem ocorrer defecções. Especialmente se o tempo for
longo e se as manifestações de rua tomarem vulto. Mas esta foi também a
avaliação feita ontem em reunião noturna no Planalto, antes da decisão de
Fachin: a de que o governo tem votos para ganhar, podendo obter até 250 votos
contra o impeachment na decisão final, com voto aberto, embora precise
trabalhar para não perder nenhum
até lá.
Outra leitura aplica-se também à
correlação interna do PMDB. A turma contrária ao governo e que trama a
destituição de Picciani da liderança já tentou isso e não conseguiu. Ao
aliar-se com a oposição, conseguiu emplacar oito deputados pró-impeachment na
chapa eleita por voto secreto. Mas nas contas do governo, isso só ocorreu
graças à aliança com Cunha e a oposição. Entre os 199 que votaram com o governo
haveria pelo menos 40 peemedebistas liderados por Picciani.
0 comentários:
O seu comentário é sua total responsabilidade.